“Cidade cresce, casas novas aparecem…
É o crescimento urbano e seu impacto no meio ambiente e no coração do homem.”
Géssica Hellmann
Desse chão
por Alex Prado

The little city por Jean Dubuffet
O sol ainda não tinha apontado a serra e várias curvas já tinha deixado pra traz. O trajeto, feito e refeito ao longo dos anos, desde menino, desde sempre, já não tinha o que contar. Nada ali era surpresa.
Meus vinte e tantos anos era este vai e vem.
No rancho as ferramentas, a enxada, a foice. Pendurada no varal do telhado de sapê uma gaiola velha que já não me trazia nenhuma alegria, pelo contrário, aquela sábia mal se agüentava no poleiro, era triste, quase tão enfadonha quanto os meus dias, mas aquele olhar lento, de virar o bico pra lá e pra cá de alguma forma me prendia a atenção. Mas naquele dia não me movia estalando o dedo no correr lateral das varetas como sempre fazia. Não hoje, hoje em alguém eu tinha de destravar o peito, ter como companheira de infortúnio.
Passo uma velha lima na enxada, busco o fio, que afio, num vai e vem ritmado. O olhar esta cravado num eito de quiabo, o capim esta alto, olho de rabo de olho, é trabalho pra uns três dias, quiabo danado, corta a carne só de esbarrar. Minha mãe me dizia que em quiabal se entra cantarolando. “Por que se não filho ele te lanha todo”. A velha estava certa, se entrar num quiabal chateado, de cabeça quente, ele te pinica até os ossos. E ali tem trabalho, de ver morcego voar, pra três dias.
Com a unha faço a enxada assobia, o fio ta fino e pronto, o braço ta quente de tanto vai e vem, pro fio chegar. Vou cume esse quiabal no braço, se bobear acabo com o eito hoje.
Já faz mais de mês e fui ao mercado, chão de muito passo largo e bem uma hora ou mais naquele caminhão velho. Num pagam nada, descer três horas de picado puxando uma parelha de burro carregado de caixa de quiabo, jiló e aipim, pra nada. Vale a pena não, é muita braçada de chão, pra pouco tostão.
Toda a terra ao redor do rancho ta trocando de mão e tudo casa boa, tudo casarão.
Eu to ali encravado, num saio não, fazer o que fora daquele chão? Num saio não. O Zé das almas vendeu tudo dele, pego mulher e sumiu, os filhos já tava tudo longe, ganhando a vida no comércio. À tardinha o Zé ficava lá sentado naquela varanda, olhando a curva, como a esperar alguém chegar, espera longa, parece até que ainda ta lá.
Ta tudo virando casarão.
O Quininho também não sai não. Mas aquele num tem mais jeito, a cachaça ta roendo ele.
Sei não, esse chão todo ta mudando de mão. Tem gente até falando língua que a gente não entende. Ta tudo mudado, ta tudo virado.
Eu só sei de uma coisa, desse chão eu não saio não.
Livros sobre crescimento urbano e meio ambiente:










